1. Sobre ser...

    terça-feira, 8 de julho de 2014

    Sendo branca, heterossexual e de classe média, a sociedade preconceituosa só me atinge por dois motivos: ser mulher e gorda. Gorda, gordinha, grande e etc. O mundo está cheio de gente acima do peso, eu sei, mas não se deixe enganar, a gordofobia (principalmente entre mulheres) é uma epidemia. Meus dedos não são suficientes para contar quantas vezes ouvi frases como "se você emagrecesse seria linda" ou "você tem que tentar um pouco mais pra perder peso" ou a clássica "você tem que comer melhor". Eu como muito bem, obrigada. Aliás, tirando meu vício de Coca-Cola, eu como melhor que muita gente magra e eu não vejo ninguém olhando feio pra elas enquanto comem bolo de chocolate. Ouço milhares de dicas e receitas mágicas para evitar o sobrepeso como se ser gordinho fosse uma maldição (talvez seja). Todas os conselhos de "como ser saudável" nada mais são que eufemismo para "cuidado para não ficar gordo pois ser gordo não é fácil e achamos mais produtivo acabar com a sua autoestima do que repensar nossos padrões". Minha mãe, que sempre foi gordinha, me disse esses dias que o sonho dela era que existisse uma loja de departamento (tipo Renner e Marisa) só com roupas para gordinhas. Pensei bem e na verdade meu sonho é que toda loja de departamento tivesse roupas para gordinhas também. Não deveríamos ter lojas só pra gente, nem mesmo seções separas, que nada mais é que preconceito disfarçado de "moda plus size", quero poder sair às compras com a minha amiga que veste 36 e comprar o mesmo vestido que ela, só que em tamanho 48. Quero que o número G seja realmente G e não um M disfarçado. Quero que façam tamanhos grandes com consciência pois ao contrário do que acham, não somos barrigudas, somos gordinhas nos braços e nas pernas também. Vocês que entendem mais de moda que eu: isso é tão difícil assim? A questão é que é mais fácil pegar um pano branco, fazer dois cortes, chamar de "+ size" e ostentar o quão inclusivos vocês são. Afinal, gordo não compra o que gosta, compra o que serve.
    Ah, a sociedade livre...


  2. o que se deixa e o que se ganha

    sexta-feira, 4 de abril de 2014

    Mudei. Mudei de casa, de cara e de cidade. Deixei a casa da minha mãe, de três quartos, sala de jantar, quintal e varanda e ganhei um apartamento de 45m² no centro de São Paulo. Deixei a proximidade da família e o colo da mãe. Deixei a comida na mesa e a roupa lavada. Deixei as duas horas de trem e ganhei só meia hora de ônibus. Deixei a academia e ganhei caminhadas de noite no Minhocão. Deixei a correria do estágio e ganhei a dedicação à faculdade. Deixei o sonho de ser professora e ganhei o amor de trabalhar com livros  Deixei a companhia de três pessoas e ganhei a companhia daquele que escolhi pra viver junto.
    Deixei quem era e ganhei quem sou.


  3. Da série coisas que qualquer um pode (e deve) entender.

    quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

    Sempre tive minha parcela de problemas com erros de português. Na escola, era exemplo clássico do tipo chatinha-professor-pasquale que saía por aí apontando dedos e corrigindo meio mundo. Quando decidi fazer Letras, assumo, foi pelo simples fato de gostar de português (tanto de literatura quanto da gramática) e não por interesse na reflexão da língua. Imaginem como foi, pra mim, entrar em Letras na Universidade de São Paulo. 
    Meu primeiro ano de faculdade foi como levar um tapa na cara e uma rasteira em seguida. Quando consegui acordar do estado de choque é que percebi como vinha repetindo e defendendo regras que eu mesma não entendia. Estudar preconceito linguístico pra mim, foi como abrir a janela de um quarto escuro pela primeira vez. Iluminador. Acredito, aliás, que todos deveriam ter pelo menos uma aula sobre o assunto. Todo mundo deveria levar esse tapa na cara decisivo na vida de qualquer falante de português-brasileiro. 
    O triste é perceber que nem os futuros professores de português discutem preconceito linguístico em seus 4 (as vezes só três) anos de graduação. Me atordoa saber que milhares de professores formam-se todos os anos sem nunca ter aprendido que discriminar alguém pelo modo como ele emprega a língua não só é preconceito mas também é contraproducente - dizer a alguém que o modo como ele fala é "errado" não faz com que essa pessoa queira aprender o certo, só faz com que ela o menospreze. 
    O problema - ou o começo dele - está exatamente nos anos de faculdade. Universidades que se preocupam com a qualidade de seus profissionais de Letras acabam por não formar alunos interessados no ensino de português  (principalmente em escolas públicas). Esses professores acabam por serem formados, então, por outras faculdades, que nem sempre se apegam à qualificação de um professor de português competente, e é com esse professor que a massa brasileira tem aula todos os dias.
    É esse professor que vai repetir mil vezes para o aluno "burro" que "mim" não conjuga verbo e que "mim ser índio" - já que, claro, é assim que os povos indígenas se comunicam (em português). É esse professor que vai despertar o ódio pelo português em seus próprios falantes. É esse professor que vai fazer com que alunos do Ensino Médio, como eu, achar que têm o direito de dizer ao amigo qual é o jeito certo de usar uma língua que é usada sem nenhum problema desde os dois anos de idade. É esse professor que vai afastar seus alunos do entendimento que a língua é dinâmica e plural, sendo ela usada de diferentes formas sem relação de superioridade entre elas. Não é fácil, eu sei, mas é necessário. 
    Minha esperança é: se eu consegui entender, qualquer pessoa pode.



  4. Quando...

    terça-feira, 18 de fevereiro de 2014




    Queria voltar no tempo. Só um pouquinho. Não é nem para os anos 80 ou pra quando era criança no interior. Queria voltar naquele tempo onde eu era ignorante. Sim, ignorante.  Sinto inveja da menina que eu era, avulsa da sociedade, mas feliz. Quando eu andava por aí inconsciente desse mundo louco e injusto em que vivo. Quando eu e minha irmã ouvimos "olha as gordinhas sexy" (que além de machista é de uma gordofobia extrema.) de um carro cheio de marmanjos e rimos, pois não sabíamos o que fazer. Quando um homem me olhava feio pois fiz alguma coisa errada no trânsito e eu morria de vergonha. Hoje em dia, tudo isso incomoda. Incomoda por quê na minha recente decisão de me mudar com o meu namorado, enquanto ele respondia se tinha gostado do apartamento, eu ouvia comentários sobre ser dona de casa e aprender a lavar roupa.
    Queria voltar naquele tempo quando eu não sabia que até minha família é machista nas pequenas coisas. São as melhores pessoas que conheço no mundo mas ainda acham que é obrigação das mulheres lavar a louça depois do almoço. Não os culpo. Mas me dói. Machuca pois levei vinte anos para perceber coisas óbvias e contestar imposições preconceituosas que me revoltam. Incomoda pois passei mais da metade da minha vida dentro de escolas que me ensinavam equações de segundo grau mas falhavam em explicar que lugar de preconceito é no século passado. Demorei vinte anos para acreditar que qualquer pessoa pode lavar a louça, e que receber cantada na rua não é nenhum elogio (pelo contrário). 
    A questão é: infelizmente não posso voltar. Agora já sei - e ainda tenho muito a aprender - e o estrago já foi feito. Fui arruinada pela consciência e aceitando o risco de ser chata e repetitiva, tenho me recusado a ficar calada diante de questões que antes passariam despercebidas na esperança de assolar mais algumas pessoas com o dádiva do discernimento.


  5. Sobre descobertas, viagens e amigos

    terça-feira, 17 de dezembro de 2013

    "The use of traveling is to regulate imagination by reality and, instead of thinking how things may be, to see them as they are." 
    Samuel Johnson

    A vida é engraçada. Até pouco tempo atrás, em todas as minhas fantasias de viajar pelo mundo, a Escócia não estava no topo da lista de países que pretendia visitar. Recentemente, isso mudou. 
    O desejo (e o planejamento) de uma viagem é algo muito pessoal. A verdade é: os lugares que você quer visitar dizem muito sobre você. Desde que cheguei em Dublin tenho descoberto que a vida é feita de prioridades e que é importantíssimo saber o tipo de viajante (e de pessoas!) que somos. As escolhas que fazemos quando estamos viajando por conta própria aos poucos nos dizem o que realmente gostamos de descobrir sobre novos lugares. 
    Descobri que caminhar por construções medievais, onde há uma bagagem histórica imensurável, me interessa muito. Contemplar paisagens de tirar o fôlego, também. Conhecer ambientes particulares daquela cidade (como cinemas dentro de pubs), mais ainda. Por ter tudo isso, Edimburgo só pode ser descrita como encantadora.





    Outra parte importante dessas descobertas é que geralmente não as fazemos sozinhos. Companhia é importante. E agrega. Afinal, bons momentos são melhores se são compartilhados. 


    Até isso viagens podem te proporcionar: amigos! Vinicius de Moraes já dizia "Não fazemos amigos, reconhecemo-os" e depois de dois meses em Dublin não poderia concordar mais. Nessa cidade onde tudo é tão intenso, reconhecer amigos é como ouvir pela primeira vez aquela música que parece ter sido feita pra nós. 


    A parte triste? Queria ficar por lá. Mas também já estava com saudades de Dublin. E logo vou embora para o Brasil.
    Ah! Não tem solução...




  6. Ignorance is bliss (?)

    segunda-feira, 2 de setembro de 2013

    Descobri, surpresa, que vivia inconsciente do mundo que me ronda. Andava por aí desconhecedora do egoísmo e do preconceito. Vivia inconsciente do desprezo que o ser humano pode nutrir por algo ser "diferente" e dessa gente que se acha no direito de decidir quem pode amar quem nesse mundo.
    Me atordoou descobrir que, de dentro do meu mundo e totalmente ignorante, vivo cercada desse mal. No meu mundo respeito é essencial, o diferente significa descoberta e amor é simplesmente amor. Independente se somos da mesma cor ou do mesmo sexo. A diversidade faz parte do meu círculo de amizade assim como a liberdade e o respeito. Isso pra mim é normal.
    Do meu ponto de vista, esse mundo é perfeito e me chocou saber que há, por aí, gente que não concorda comigo. Dentro de toda a liberdade e respeito que prezo, estava cega em relação à odiosidade alheia.
    O engraçado é que, apesar de ter certeza de que esses outros seres humanos estão também cegos dentro de seus próprios preconceitos e ignorantes da diversidade que os cerca, a dádiva da ignorância era minha.
    No fim, a sortuda era eu por não saber que esse egoísmo ainda existe e é perigoso.



  7. 3 anos...

    terça-feira, 9 de outubro de 2012


    "Porque eu te amo, tu não precisas de mim. porque tu me amas, não preciso de ti. No amor, jamais nos deixamos completar. Somos, um para o outro, deliciosamente desnecessários."
    Roberto Freire

    Tudo em mim, até minha escrita, é pausado, curto. Estou sempre (des)afirmando algo. Perguntando e respondendo. Tudo muito rápido, pois meu modo é assim: pontual. Desenvolvimento nunca foi meu forte. Não desenvolvo as coisas, não deixo nada rolar.
    Você, observador que é, percebeu. Gostou de mim mesmo assim e ao invés de me cobrar algo que nunca poderia cumprir, fez o contrário: desenvolveu-me. Sem perceber, trouxe seu jeito para perto de mim e eu gostei. Não admito com frequencia, mas gosto. Até hoje.
    Além de nós, todo o resto ainda é pontual, claro. Continuo abusando das afirmações, a diferença é que agora, para cada ponto final que tento colocar, você vem e substitui por uma vírgula.
    Claro que posso viver de pontos finais, assim você é capaz de viver somente virgularizando o mundo. Mas pra quê? É mais bonito viver com a pontuação completa.

  8. Silêncio.

    quarta-feira, 25 de julho de 2012


    “And every demon wants his pound of flesh
    But I like to keep some things to myself
    I like to keep my issues drawn
    It's always darkest before the dawn”

    Sempre achei o silêncio injusto. Toda essa história de paz interior nunca me convenceu. Aliás, nem acredito que ela exista. Há sempre tantas coisas para serem ditas nesse mundo! Alguns preferem guardar para si, mas não conheço um ser humano que não tenha nada para falar. Acho uma vergonha fingir não ter.
    Ironicamente, o silêncio tem me caído muito bem. É estranho, e estava prestes a me condenar quando percebi que não meu estado não tem nada a ver com paz interior, pois não sou o tipo de pessoa que finge não ter o que falar. Aqui dentro, ainda há coisas para serem ditas, muitas delas, mas a beleza está em não precisar dizê-las.

  9. Sem paciência...

    quarta-feira, 18 de julho de 2012


    Quem me conhece, sabe: nunca tive muita paciência pra coisa nenhuma. A novidade? Agora não tenho paciência para pessoas. Com míseros dezoito anos de idade não tenho paciência para fingir que gosto do que as pessoas falam ou fazem. Não tenho paciência para aquele amigo que diz que morre de saudade mas nunca tem tempo pra ligar. Não tenho paciência pra turma de trinta e cinco anos que faz as mesmas coisas como se tivesse...bem, dezoito. Falta-me paciência para os dramas. Não tenho paciência para torcedor fanático e gritaria em dia de futebol. Muito menos para silêncio constrangedor. Minha paciência vai embora com idealistas que acham ter a solução para o país em uma simples frase. Não tenho paciência para ouvir a mesma pessoa contar sobre os mesmos planos sabendo que no fim, não vai correr atrás de nenhum deles. Pra falar bem a verdade, tudo que é "comum" na vida, anda me tirando a paciência. Estou sem paciência para o que repete, não evolui, não muda, fica sempre parado no mesmo lugar esperando os acontecimentos caírem do céu. Guess what? Nada cai do céu, minha gente. Nem paciência.


    "Aprende que paciência requer muita prática."

  10. Amigos!

    segunda-feira, 25 de junho de 2012

    “-Vamos pedir uma?”- E para bom entendedor, meia palavra basta. Uma Skol, geralmente, bem gelada. Uma para refrescar, ignorar o calor. Uma para esquecer a prova de cálculo ou de clássicos na próxima semana. Uma para esquecer que brigou com o namorado, ou para esquecer que ainda não tem namorado. Uma para contar histórias e dividir experiências. Uma para lembrar, do mês passado, do ano passado ou da vida passada. Uma para rir de piadas – até as sem graça. Uma para desinibir e falar de assuntos proibidos que só as mulheres sabem discutir. Uma para comemorar a quinta-feira, o sábado, ou até a segunda. Uma para fofocar e falar mal daqueles que não tem o privilégio de se sentar conosco. Uma para várias de nós. Todas dividindo uma, duas...ou quantas pudermos aguentar!"





    Não sei se é o clima de começo de férias (só mais uma semana e um trabalho pela frente!), mas ultimamente dois sentimentos parecem ter tomado conta de mim: saudade e esperança. Saudade, pois quando entrei na faculdade e voltei para São Paulo como sempre quis, deixei pra trás, em uma cidadezinha do interior que nunca significou nada pra mim, momentos e companheirismos inesquecíveis. Alguns dos personagens principais desses momentos estão geograficamente perto, mas nada é como antes. Sinto falta de tardes de conversas, das noites dormidas em seis (onde coubesse, lá estávamos), jantas na casa das amigas, rodízios de pizza no Barello ou lanches do Mingo. Começo, agora, a entender porquê sempre me disseram que sentiria falta do ensino médio. Ou melhor, quase entendo. Não é o ensino médio que faz falta, são os amigos. E bom, amigos não estão presos ao chão, ainda bem. Podemos nos encontrar sempre que a vida der uma brecha.
    Conheci muitas pessoas importantes desde que entrei na faculdade. Poderia dizer até que ganhei um amigo para cada um que deixei "pra trás". Troquei idas à praça da cidade por sextas na Augusta. Jantas, por dias inteiros na casa da amiga. Mesmo sabendo da loucura que é São Paulo, amigo é assim: se encontra. 
    Encontra-se um amigo mesmo que ele não goste das mesmas músicas que você, ou prefira aquela matéria que você acha um porre. Amizade também é encontrar-se nas diferenças.
    Nessas férias, espero encontrar todos os meus amigos perdidos pelo mundo!


    Vejo vocês por aí.
    Isa.