1. Entre a Paulista e a República.

    sábado, 19 de dezembro de 2015

    De repente, entre a Paulista e a República:
    "Espero que a leitura seja boa!" disse ele.
    E deu um sorriso envergonhado, de quem foi pego cometendo um dos crimes mais graves: intrometer-se na leitura do outro. Mas ela não ligou. Aproveitou para fazer o mesmo.
    Os olhos se cruzaram. Um olhar envergonhado mas de cumplicidade, de quem insiste em encontrar escapatória, mesmo que a voz ao fundo insista em anunciar a próxima estação.
    "Obrigada! A sua também."
    Tem coisa mais sincera pra se desejar a alguém?

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  2. Minha verdade espantada!

    quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

    “Minha verdade espantada é que eu sempre estive só de ti e não sabia. Agora sei: sou só. Eu e minha liberdade que não sei usar. Grande responsabilidade da solidão. Quem não é perdido não conhece a liberdade e não a ama. Quanto a mim, assumo a minha solidão”.

    Clarice Lispector, em 'Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres' 1969.
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  3. Marina Colasanti já sabia em 1972...

    sábado, 14 de novembro de 2015

    e em novembro de 2015, ainda faz sentido!


    "Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

    A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

    A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

    A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

    A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

    A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

    A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

    A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

    A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

    A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma."

    Marina Colasanti em Eu sei, mas não devia.
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  4. Tem dias...

    terça-feira, 20 de outubro de 2015

    Hoje eu acordei as 5 da manhã e demorei 3 horas pra chegar na faculdade. Lá, tive uma prova e uma aula que totalizaram mais ou menos 4 horas e no estágio, 6 horas.
    Hoje eu sai do trabalho às 18h e cheguei em casa as 22h. Depois de 15 horas de atividades diárias e antes mesmo de sair da estação de trem, eu chorei.
    Chorei por que estava cansada. Ficar quatro horas de pé, dentro de um vagão apertado pra quem tem problemas nas costas está longe de ser o paraíso. Chorei por que estava com fome, já que quatro pedaços de fruta tinham sido a última coisa que comi. Chorei por que ainda é terça-feira mas meu corpo (e minha mente) pareciam já estar no limite. Mas chorei, principalmente, por que sei que no meio das estações lotadas e dos trens atrasados, tinha gente em situação muito pior que a minha.
    Eu tinha carona (e colo) de pai e mãe até em casa. Tinha a liberdade para escolher não ir na faculdade amanhã, pra que eu possa descansar e continuar a semana como se essa terça-feira não tivesse acontecido. E tinha a esperança de que no final de semana, apesar da correria, teria tempo para descansar.
    E quem não tem? E quem ainda pegaria um ônibus lotado pra casa? E quem carregava criança pequena ou tinha filho pequeno esperando em casa? E quem ainda chegaria em casa para fazer janta para a família? E quem não pôde estudar, trabalha mais e ganha bem menos? E quem vai acordar amanhã, novamente, as 5 da manhã pra passar por tudo isso de novo?
    Me desculpem, mas nossa definição de viver está um tanto quanto distorcida e estamos tão preocupados sobrevivendo que esquecemos que isso não é vida. Afinal, a sociedade é feita disso, não é? Dessa semi-vida que cria escravos e não pessoas. Que, sorrateiramente, nega direitos básicos a quem não tem tempo de notar. Dessa desigualdade maldita que faz com quem tenha poder de decisão para melhorar a vida do povo, não tenha a menor ideia do que esse povo carece.
    Depois de dias como esse, depois de choro, banho e desabafo, eu me pergunto: onde é que começa a violência?


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  5. How to explain?
    You trigger in me some kind of caring instinct that I can't shake. I see you hurting, absolutely lonely and I hope you know that it keeps me up at night. It's like you're inside a dark hole and everyone around you - especially me - is constantly trying to pull you out but the more we try, deeper you seem to go.
    I also wanted you to know that I will keep trying with you, I will. But not now, I'm afraid. Now I have my own hole to crawl out of and I need to take care of myself before I can worry about anyone else. But please wait, because I'm sure one day we'll both be full of light again and I, for once, will be really happy to share it.
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  6. I'll never be free.

    sexta-feira, 9 de outubro de 2015

    "One day I know I'll be moving on, but I fear you'll be always right there holding a piece of my heart that'll never belong to me. And I'll live my life, find reasons to smile so everyone will think you did'nt shake me and totally break me. They'll never know I'll never be free."

    by Abbi Glines

    (via 'berlin-artparasites' facebook page)
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  7. Como é?

    domingo, 4 de outubro de 2015

    Vem cá! Não se acanhe. Chega mais perto e conta pra mim: como é se tornar aquilo que você sempre condenou?
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  8. Fomos diferentes.

    domingo, 13 de setembro de 2015

    Desde o começo, a gente sabia que era diferente.
    Desde quando você ficou assustado com a minha idade. Desde o nosso primeiro beijo. Eu namorava e achava que estava apaixonada por outra pessoa. Desde quando você segurou minha mão como se sua vida dependesse daquilo. Desde quando você dirigia com uma mão só para poder me dar a outra. Desde quando não existia facebook e as declarações eram feitas como esta aqui, em blogs.
    Desde quando Marcelo Camelo e Mallu Magalhaes eram nossa trilha sonora oficial. Desde quando todo mundo te disse que só ia durar seis meses e você disse "então vou ser feliz esses seis meses, obrigada". Desde quando todo mundo reclamava da sua ex namorada e eu morria de medo de ninguém gostar de mim. Desde quando meus amigos me diziam que você tinha tudo a ver comigo. Desde quando você entendeu minhas amizades. Desde quando eu te aceitei como o equilíbrio necessário. Desde quando nos víamos só a cada 15 dias depois de uma viagem de 3 horas. Desde quando sua família me abraçou como se eu fosse parte dela e você já era parte da minha há anos. Desde que soubemos que liberdade fazia parte da nossa essência. Desde quando eu decidi morar fora do país e não recebi nada além de apoio. Quando vejo tanta gente triste por que acabou e quando percebi que éramos exemplo pra muita gente, percebo que fomos muito diferentes. Fomos diferentes por que sabemos que separados somos menos.
    Pra mim, a certeza de que fomos diferentes chegou definitivamente agora. Enquanto escrevo este post já que é a única forma que sei como desabafar. Sabendo que nos próximos dias irei lembrar de tantas outras formas nas quais fomos diferentes e vou querer voltar e editar esse texto todo. Fomos diferentes pois apesar de tudo, não te desejo nada além de coisas boas e espero que você, aí do outro lado, também tenha certeza de que fomos diferentes. Hoje, quando olho pra trás e vejo quantas vezes escolhemos levar a vida do nosso jeito, tenho orgulho de nós dois. Orgulho pois nunca nos desculpamos por ser diferentes. Sabíamos que essa diferença na verdade nos fazia únicos.
    Acho que por isso dói tanto. Machuca pois sei que tudo isso é muito raro e talvez só aconteça uma vez na vida e essa tenha sido a minha. Mas, não se engane, se a gente só tem uma chance na vida de ser diferente, agradeço todos os dias por ter sido com você.
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  9. terça-feira, 8 de setembro de 2015

    Amar verdadeiramente as pessoas é perdoá-las por ser quem são. E esperar, com o coração na boca, ser perdoado também.
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  10. Não tive tempo.

    quinta-feira, 3 de setembro de 2015

    Quando a gente volta, a única coisa que espera é que tudo esteja no mesmo lugar. Daquele enfeite no móvel da sala ao cheiro familiar no travesseiro. Seja um mês ou um ano: a beleza da volta está na familiaridade das coisas que o tempo não apaga. Pois é, voltei. Mas infelizmente não tive tempo.
    Não tive tempo de matar as saudades. Não tive tempo de te dizer que na verdade, sempre te preferi com barba. Não tive tempo de contar que o café de lá continua horrível e que o vento continua batendo como se cortasse o rosto e o coração da gente. Não tive tempo de discutir todas as coisas novas que aprendi. Não tive tempo de abraçar sem precisar ter motivo. Não tive tempo de ouvir suas aflições diárias. Não tive tempo de te apresentar para as pessoas que conheci. Não tive tempo de te contar sobre lugares que fui. Não tive tempo de te perguntar pra onde desejaria ir. Não tive tempo de perguntar qual pós graduação você decidiu fazer. Não tive tempo de te contar dos planos que fiz para 2016. Não tive tempo de ceder e aceitar que as vezes é melhor não fazer plano nenhum. Não tive tempo de me arrepender de muita coisas. Não tive tempo de contar que depois de tantos anos, seu rosto ainda era a primeira coisa que eu queria ver quando descesse do avião. Não tive tempo de te dizer que me decepcionei mas também não tive tempo de dizer que tudo bem.
    Não tive tempo, principalmente, de descansar meus olhos nos seus com a sensação de que aquilo nunca iria mudar. De de te olhar nos olhos uma última vez e me sentir a pessoa mais amada do mundo. Não tive tempo de fazer muitas coisas. Mas afinal, quem é que tem tempo?


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  11. sexta-feira, 12 de junho de 2015

    Existem dois tipos de pessoas no mundo: as que correm da chuva e as que nem sequer apertam o passo...
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